Hoje acordei com saudade de nós —
não do nosso fim, mas do nosso começo, quando existíamos inteiros dentro
daquele “nós” que parecia suficiente para tudo. Viajávamos aquecidos pelo sol,
com o vento acariciando a pele, estrada aberta, natureza, moto e liberdade. Era
simples e grandioso ao mesmo tempo.
Sinto falta da leveza que nos
habitava, da alegria despreocupada, do som fácil das nossas risadas, da forma
como a vida parecia encantada só por estarmos juntos. Acordávamos e o mundo
começava em nós, ao nos fazer um todas as manhãs, no ato conjugal. Depois,
ficávamos horas conversando, como se o tempo não tivesse pressa. Recarregados,
saíamos para enfrentar o dia — e, ainda assim, encontrávamos brechas para fugir
de tudo e nos reencontrar nos nossos abraços, cúmplices, intensos, vivos.
Éramos dois em um, um pelo outro.
Bastávamo-nos. Completávamo-nos sem esforço, como se fosse natural e
inevitável.
Até que tudo mudou. Sabemos
exatamente onde nos perdemos — o começo do fim foi quando viramos comunidade, naquele ponto em que a atenção foi desviada,
preterida, descuidada e abandonada, e o cuidado virou silêncio, o riso deu
lugar ao cansaço e, pouco a pouco, deixamos de escolher um ao outro como antes.
O amor não acabou de repente; ele foi se despedindo em pequenos gestos não
feitos, em palavras não ditas… até restar só essa saudade de quem um dia fomos.
O que morreu não aprende a florescer outra vez — ficou no chão, feito taça
estilhaçada, espalhando o brilho dos encantos abandonados.
Cláudio
25/04/2026

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