sábado, 25 de abril de 2026

MEMÓRIAS

 


Hoje acordei com saudade de nós — não do nosso fim, mas do nosso começo, quando existíamos inteiros dentro daquele “nós” que parecia suficiente para tudo. Viajávamos aquecidos pelo sol, com o vento acariciando a pele, estrada aberta, natureza, moto e liberdade. Era simples e grandioso ao mesmo tempo.

 

Sinto falta da leveza que nos habitava, da alegria despreocupada, do som fácil das nossas risadas, da forma como a vida parecia encantada só por estarmos juntos. Acordávamos e o mundo começava em nós, ao nos fazer um todas as manhãs, no ato conjugal. Depois, ficávamos horas conversando, como se o tempo não tivesse pressa. Recarregados, saíamos para enfrentar o dia — e, ainda assim, encontrávamos brechas para fugir de tudo e nos reencontrar nos nossos abraços, cúmplices, intensos, vivos.

 

Éramos dois em um, um pelo outro. Bastávamo-nos. Completávamo-nos sem esforço, como se fosse natural e inevitável.

 

Até que tudo mudou. Sabemos exatamente onde nos perdemos — o começo do fim foi quando viramos comunidade, naquele ponto em que a atenção foi desviada, preterida, descuidada e abandonada, e o cuidado virou silêncio, o riso deu lugar ao cansaço e, pouco a pouco, deixamos de escolher um ao outro como antes. O amor não acabou de repente; ele foi se despedindo em pequenos gestos não feitos, em palavras não ditas… até restar só essa saudade de quem um dia fomos. O que morreu não aprende a florescer outra vez — ficou no chão, feito taça estilhaçada, espalhando o brilho dos encantos abandonados.

 

Cláudio

25/04/2026

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